Há uma imagem que define o Grupo I melhor do que qualquer análise: Kylian Mbappé e Erling Haaland no mesmo grupo de uma Copa do Mundo. Dois dos jogadores mais determinantes do futebol atual, duas máquinas de gol que acumularam recordes em seus respectivos clubes, frente a frente na fase de grupos da Copa do Mundo. Só por esse duelo, este grupo merece atenção especial.

Mas além do confronto estelar, o Grupo I tem camadas. A França é a seleção que todos querem evitar, a Noruega volta a uma Copa depois de quase três décadas, o Senegal traz a melhor versão do futebol africano, e o Iraque retorna com uma história de superação que transcende o esporte.

França: a máquina que não para

Finalista no Qatar 2022 — onde apenas uma disputa de pênaltis a separou do bicampeonato —, campeã na Rússia 2018, finalista na Eurocopa 2024. A França leva uma década sendo presença constante nas fases finais de cada torneio que disputa. Não é coincidência: o sistema de formação francês produz talento num ritmo que nenhum outro país europeu consegue igualar.

A estrutura tática de Deschamps prioriza a solidez acima do espetáculo, mas com jogadores como Mbappé, a diferença entre as duas coisas se dilui. A França pode vencer um jogo controlando a posse, pode vencer no contra-ataque, pode vencer sofrendo. Essa versatilidade é o que a torna candidata permanente.

Num grupo onde é clara favorita, o risco para a França não é a eliminação — é a complacência. Os grandes tropeços das seleções poderosas raramente acontecem porque o rival foi melhor; acontecem porque o favorito não esteve à sua própria altura.

Noruega: Haaland e um país que espera há 28 anos

A última vez que a Noruega jogou uma Copa do Mundo foi na França 1998, onde caiu nas oitavas de final diante da Itália. Desde então, uma das nações mais prósperas da Europa foi incapaz de se classificar para a competição máxima do futebol — até agora.

Erling Haaland muda a equação. Não apenas pelos seus gols, que são uma força da natureza por si sós, mas porque sua presença eleva o nível de toda a seleção. Quando o melhor centroavante do mundo joga com a sua camisa, os rivais destinam recursos extras para controlá-lo, e isso libera espaços para o restante.

A Noruega não é uma seleção de um homem só, mas seria desonesto não reconhecer que Haaland é a diferença entre competir e simplesmente participar. O confronto Noruega-França, com Haaland contra a defesa francesa, será um dos duelos mais aguardados da fase de grupos.

Senegal: a potência africana que já não é promessa

O Senegal consolidou sua posição como uma das seleções africanas mais fortes do último ciclo. Campeão da Copa Africana de Nações em 2022, quartas de final em 2002 com aquela geração liderada por El Hadji Diouf, e uma presença cada vez mais regular nas Copas do Mundo.

O futebol senegalês combina uma base física extraordinária — velocidade, potência, resistência — com uma qualidade técnica que reflete a presença de seus jogadores nas principais ligas europeias. A Premier League, a Ligue 1 e a Bundesliga estão repletas de jogadores senegaleses que trazem experiência competitiva do mais alto nível.

No Grupo I, o Senegal tem argumentos reais para disputar a segunda vaga com a Noruega. Sua solidez defensiva, sua capacidade atlética e sua experiência em torneios recentes lhe conferem um perfil de rival incômodo para qualquer um, incluindo a França.

Iraque: o retorno mais emotivo do torneio

Se existe uma classificação que transcende o esportivo nesta Copa, é a do Iraque. Vencedor da Copa da Ásia em 2007 — em meio a um conflito que dilacerava o país —, a seleção iraquiana lutou durante décadas contra circunstâncias que vão muito além do que acontece dentro de um campo de futebol.

O retorno do Iraque a uma Copa do Mundo, depois de sua última participação no México 1986, é uma história de resiliência geracional. Gerações inteiras de jogadores iraquianos cresceram sem a possibilidade real de competir neste nível. Que esta geração tenha conseguido é, por si só, uma vitória.

No plano competitivo, o Iraque terá que maximizar cada oportunidade. Seu jogo contra a Noruega será decisivo para suas aspirações de somar pontos, enquanto contra França e Senegal precisará de uma atuação defensiva quase perfeita para se manter na partida.

O que esperar do Grupo I

A França vai se classificar. Isso não deveria gerar debate. A verdadeira batalha é pela segunda vaga, onde Noruega e Senegal apresentam candidaturas igualmente legítimas mas com perfis opostos: a estrela individual norueguesa contra a fortaleza coletiva senegalesa.

O Iraque não chega com expectativas de classificação, mas sua presença no torneio já é um triunfo. Se conseguir competir com dignidade e arrancar algum ponto, terá superado qualquer prognóstico razoável.

O Mbappé-Haaland vai dominar as manchetes. Mas este grupo tem mais histórias para contar.


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