Se existe um grupo nesta Copa que merece o rótulo de “grupo da morte” não pelo acúmulo de potências mas pela qualidade do confronto principal, é o Grupo H. Espanha contra Uruguai é um embate entre duas filosofias futebolísticas que produziram alguns dos melhores times das últimas duas décadas. E ao redor desse duelo estelar, a Arábia Saudita traz a lembrança da maior surpresa do Qatar 2022 e Cabo Verde escreve o primeiro capítulo da sua história mundialista.

Espanha: a campeã da Europa quer mais

A Roja chega com uma geração que já demonstrou sua capacidade de vencer torneios grandes. A Eurocopa 2024, conquistada na Alemanha com um futebol que combinava a posse de bola tradicional espanhola com uma verticalidade que não se associava a ela, foi a validação definitiva do projeto de Luis de la Fuente.

Lamine Yamal, Pedri, Gavi — a nova geração espanhola tem a idade ideal para uma Copa: jovens o suficiente para correr, experientes o suficiente para competir. A Espanha não vem a este torneio em fase de construção. Vem para ganhar.

O único interrogante é a consistência num torneio longo de 104 jogos onde a profundidade de elenco é posta à prova como nunca. A Espanha tem qualidade de sobra para superar a fase de grupos. A questão é se a administra sem desgaste desnecessário.

Uruguai: a garra charrúa nunca é clichê

Chamar o Uruguai de competitivo é pouco. Esta é uma seleção de três milhões de habitantes que ganhou duas Copas do Mundo, que esteve nas quartas de final em três dos últimos cinco torneios e que produz jogadores de elite com uma frequência que desafia toda lógica demográfica.

A influência de Marcelo Bielsa no banco acrescentou uma camada de intensidade tática ao DNA já agressivo do futebol uruguaio. A pressão alta, as marcações individuais na saída de bola rival e a exigência física são marcas registradas deste time. Contra a Espanha, isso se traduz num jogo onde a Roja não poderá controlar o ritmo com a comodidade habitual.

Uruguai-Espanha promete ser o melhor jogo da fase de grupos da Copa. Dois times que sabem jogar, que sabem competir e que sabem vencer. A diferença será feita nos detalhes.

Arábia Saudita: o fantasma de Lusail segue vivo

Em 22 de novembro de 2022, a Arábia Saudita venceu a Argentina por 2 a 1 no Estádio de Lusail, provavelmente a maior surpresa na história de uma fase de grupos de Copa do Mundo. Aquele jogo demonstrou que o futebol saudita, quando executa um plano tático com disciplina militar, pode competir com qualquer um durante noventa minutos.

A pergunta é se aquela vitória foi um momento isolado ou o início de uma tendência. As eliminatórias asiáticas sugerem que a Arábia Saudita continua sendo um time sólido porém irregular: capaz de grandes noites e também de derrotas inesperadas.

Num grupo com Espanha e Uruguai, a margem da Arábia Saudita para avançar é estreita. Mas ninguém neste torneio terá esquecido o que aconteceu em Lusail. Isso, por si só, gera respeito.

Cabo Verde: uma nação de ilhas no mapa mundial

Cabo Verde é o estreante absoluto do Grupo H, e um dos grandes estreantes do torneio. Um arquipélago de pouco mais de meio milhão de habitantes no Atlântico, em frente à costa do Senegal, que transformou a classificação mundialista no maior feito esportivo da sua história.

O futebol cabo-verdiano se nutre da sua diáspora: muitos dos seus jogadores nasceram ou se formaram em Portugal, França ou nos Países Baixos. Essa conexão europeia lhe dá um nível competitivo superior ao que seu tamanho sugeriria, embora a distância para seleções do porte de Espanha e Uruguai seja considerável.

Para Cabo Verde, cada jogo será uma final. Seu objetivo realista é competir com dignidade e, se tudo der certo, somar algum ponto que faça história. O duelo contra a Arábia Saudita será, provavelmente, sua melhor oportunidade.

O que esperar do Grupo H

Espanha e Uruguai são favoritas claras para as duas primeiras vagas, mas a ordem entre elas está completamente aberta. O confronto direto tem o potencial de ser um dos jogos mais lembrados da fase de grupos — duas escolas de futebol que se respeitam e que não dão nada de graça.

A Arábia Saudita lutará pelo terceiro lugar e pela possibilidade de classificar como melhor terceiro, enquanto Cabo Verde viverá cada minuto como um capítulo de uma história que ninguém teria imaginado há uma década.

O Grupo H não será o mais incerto do torneio, mas será o mais intenso.


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