Há poucas noites no futebol europeu que consigam igualar o que Anfield gera quando o Liverpool precisa de recuperar uma desvantagem. Mas Anfield só funciona quando a equipa que entra em campo consegue sustentar essa energia com futebol. O problema nesta eliminatória não é o estádio. O problema é que este Liverpool já não tem a estrutura para devolver ao público o que o público lhe dá.
O 0-2 e o que diz verdadeiramente
O PSG não foi favorecido em Paris. Dembélé marcou na primeira parte com o instinto de um jogador que passa um ano a ganhar os jogos grandes. Gonçalo Ramos sentenciou ao minuto 74 quando o Liverpool procurava desesperadamente algo que não tinha. O 2-0 final não refletiu toda a distância entre as duas equipas, mas a distância existiu.
O Liverpool precisa de três golos contra o atual detentor do título da Champions League. E precisa desses três sem sofrer nenhum, porque o primeiro golo do PSG obriga o Liverpool a marcar quatro. A montanha é alta mesmo para um estádio que viveu noites impossíveis.
Salah e a última grande noite
Mohamed Salah passa meses num silêncio que não é desportivo — é contratual. O seu vínculo com o Liverpool termina em junho e os rumores sobre o seu futuro — incluindo a possibilidade de uma cláusula de saída ser ativada se o clube não se qualificar para a Champions — pesam sobre cada jogo que disputa. Esta noite em Anfield pode ser, dependendo de como corra, a sua última aparição numa grande eliminatória europeia como jogador do Liverpool.
Salah tem a qualidade para aparecer. No Parque dos Príncipes esteve perto: o remate frontal que Donnarumma desviou com as duas mãos na segunda parte foi o seu melhor momento da noite. Se há um jogador capaz de inflamar Anfield nos primeiros quinze minutos, é ele. Se o fizer ou não pode definir não só esta eliminatória mas o relato de como o seu ciclo no clube termina.
O PSG como campeão que sabe defender
Luis Enrique construiu algo diferente do PSG que conhecíamos. Uma equipa que não tem apenas individualidades brilhantes — Dembélé, Hakimi, Vitinha, Gonçalo Ramos — mas uma estrutura coletiva que sabe gerir os jogos com vantagem no marcador. Na segunda parte em Paris, quando o Liverpool empurrou, o PSG reorganizou-se num bloco defensivo sem drama nem falhas.
Em Anfield, esse mesmo bloco será posto à prova por uma pressão ambiental que não tem equivalente no futebol europeu. A questão não é se o PSG consegue resistir à pressão do Liverpool. É se este Liverpool consegue gerar essa pressão de forma sustentada durante noventa minutos. E é aí que está o problema.
Um clube em transição a jogar a noite mais importante do seu ano
A direção do Liverpool trabalha na contratação do próximo treinador. A incerteza em torno da situação de Slot pesa sobre o balneário. Esta não é uma equipa que chega a Anfield com a clareza e confiança das equipas que fazem remontadas históricas. É uma equipa que chega ao jogo mais importante da sua temporada a arrastar questões sem resposta sobre o seu próprio futuro.
Isso não significa que não possam ganhar. Significa que a margem para o erro é zero, e que a coesão que uma remontada desta dimensão exige vai ser muito difícil de sustentar durante noventa minutos.
O veredicto
O PSG avança para as meias-finais. Anfield vai fazer o que Anfield faz sempre: criar um ambiente que desestabiliza os visitantes durante os primeiros quarenta e cinco minutos. O Liverpool pode marcar um, talvez até dois. Mas o PSG tem a experiência do campeão e tem Luis Enrique para manter a ordem quando as coisas se complicam. Virar um 0-2 contra esta equipa, neste momento da temporada do Liverpool, é demasiado para pedir.
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