O favoritismo não garante nada
A mídia brasileira já elegeu a Seleção como favorita número 2 da Copa do Mundo 2026, atrás apenas da Argentina ou França. Vinícius Jr., Endrick, Rodrygo, Raphinha — geralmente talentosa, treinador experiente, recuperação tática. Tudo certo.
Exceto que não está tudo certo.
Enquanto o Brasil aposta tudo em um projeto geracional ainda não testado em pressão máxima, as fragilidades aumentam. Dorival Júnior tem uma janela de ouro para fazer história — ou para virar sinônimo de desperdício de potencial.
Problema 1: O meio-campo segue frágil
Dorival construiu a Seleção em torno do eixo ofensivo — Vini Jr., Rodrygo, Raphinha, Endrick. Mas a defesa do meio-campo é o calcanhar de Aquiles.
Lucas Paquetá (Arsenal) está fora. Bruno Guimarães (Newcastle) é confiável mas isolado. E os laterais? Danilo (Real Madrid) não está na melhor forma. Guilherme Amorim (Celta) é promessa, não garantia.
Compare com Argentina: Rodri (Manchester City) + Enzo Fernández (Chelsea) criaram controle total na Copa 2022. Espanha: Busquets, Gavi, Pedri em seu auge.
O Brasil terá que vencer atacando desesperadamente. Ganha de 3x2? Ótimo. Perde de 1x2? Aquela abertura custará caro.
Problema 2: Defesa em transição
Danilo + Marquinhos é dupla testada. Mas em 2026, Militão (Real Madrid) terá 27 anos com lesões acumuladas. Nino (Sevilla) é talentoso mas não tem experiência de Copa.
Quem joga fora de casa? Em um mata-mata contra Dinamarca, Holanda ou Itália (cenários reais do pote 2), a Seleção sofrerá pressão alta nos primeiros 15 minutos.
Um zagueiro fora de ritmo ou um lateral apressado = contra-ataque mortal.
Problema 3: O banco está vazio
Enquanto seleções fortes têm soluções, o Brasil toca na esperança.
- Atacantes: Se Vinícius Jr. tomar vermelho ou se lesionar, o plano B é Richarlison (em forma questionável) ou apostar em Endrick + Rodrygo como falsos 9.
- Volantes: Se Guimarães cair, quem segura? Jorginho? Danilo como volante? Improvisação.
- Laterais: Se Danilo se machuca, a improviso é total.
Catar 2022, o Brasil tinha soluções em todas as posições. Agora tem apostas.
Problema 4: Grupos complicados
Ainda sem sorteio final, o Brasil pode pegar Holanda (ou Canada, mas improvável) + Uruguai ou Portugal + força menor.
Em qualquer cenário:
- Holanda — prensa alta, volume físico, nenhuma brincadeira
- Uruguai — agressivos, gostam de contato, farão vida difícil
- Portugal — Bruno Fernandes, Cristiano (se participar), compactos defensivamente
Não é “cai na fase de grupos”, mas é não sair em primeiro lugar tranquilamente.
E mata-mata? Aí não tem segundo jogo. Um lapso = casa.
A aposta ousada de Dorival
Dorival escolheu a velocidade ofensiva como identidade. Vini Jr. e cia. roubam bola, saem em contra-ataque rápido, chutam com precisão.
Funciona contra times que respeitam o Brasil (Bolívia, Equador). Até contra seleções de médio calibre (Gales, Marrocos).
Contra grandes? Contra seleções que impõem ritmo, roubam bola fora da defesa brasileira, colocam 5-6 jogadores na marcação a pressão?
O Brasil fica exposto. Vulnerável. Dependente de um momento genial que pode não chegar.
E se… Dorival não tiver tempo?
O México mudou de técnico semanas antes da Copa. Desastre. Itália nem foi em 2022 depois de um desentendimento com o técnico meses antes.
Dorival está em seu terceiro ano — tempo suficiente para criar identidade. Mas a Confederação brasileira não é conhecida por paciência. Uma saída de grupo complicada, um jogo ruim contra alemanha ou França nos oitavos, e a pressão volta.
Quanto tempo Dorival tem se o Brasil sofrer?
Afinal, por que o Brasil ainda é favorito?
Porque a seleção é talentosa de verdade. Vinícius Jr. está em seu auge (26 anos em junho). Endrick aos 18 já quebra paradigmas. Rodrygo aprendeu a defender em Liga. Raphinha é consistência pura.
Se tudo alinhado — se o meio-campo segura, se a defesa fecha, se Dorival acerta os ajustes — o Brasil vence.
Mas os “ses” aumentam a cada dia.
Conclusão: hexacampeão não é destino
É intenção. Plano. Aposta.
E apostas, na Copa do Mundo, são perdidas por seleções muito melhores que essa.
O Brasil em 2026 é perigoso. Mas não é invencível. E reconhecer as fraturas agora — antes de junho chegar — é o começo para que Dorival as solucione.
Caso contrário, haverá espaço para outra seleção tomar a coroa.