O Real Madrid tem um problema que nem a história consegue resolver: chegar ao Allianz Arena no dia 15 de abril a perder 0-2 não é o mesmo que chegar ao Bernabéu nessa situação. Os milagres fabricam-se em casa. Em Munique, são eles que os fabricam.

O resultado que muda tudo

Dois golos de desvantagem parecem recuperáveis até analisar o contexto. O Bayern não foi a Madrid especular. Foi dominar. E conseguiu. Luis Díaz e Kane marcaram num Bernabéu que foi perdendo argumentos muito antes do apito final. Xabi Alonso apresentou um plano que neutralizou o Vinicius, silenciou o Mbappé e deixou o Madrid sem resposta tática durante noventa minutos.

Dar a volta implica marcar três golos no Allianz Arena — um dos estádios mais hostis da Europa — contra uma equipa que na primeira mão demonstrou não ter falhas defensivas evidentes. A aritmética é possível. A probabilidade, muito menos.

Vinicius em território hostil

A primeira mão desmontou o argumento mais sólido do Madrid: que o Vinicius pode desequilibrar qualquer jogo. O brasileiro terminou a noite do Bernabéu sem uma única oportunidade clara de golo. Não foi falta de empenho. Foi um plano cirúrgico de Xabi Alonso, que conhece o jogador desde a sua época como adjunto em Madrid.

No Allianz Arena, sem o calor do público do Bernabéu, essa dificuldade multiplica-se. O Bayern pode pressionar ainda mais alto. O ambiente alemão não favorece um jogador que precisa do fervor da sua própria adepção para elevar o seu rendimento. E Alonso sabe agora com certeza que o plano funcionou. Não o vai mudar.

Kane: uma ameaça diferente em casa

Harry Kane marcou em Madrid com o tornozelo ligado. No seu estádio, sem esse peso físico, o inglês torna-se um problema ainda maior. No Allianz Arena esta temporada marcou 17 golos. É o eixo de um ataque que combina profundidade, pressão alta e chegadas a partir da segunda linha. Lunin terá de fazer uma noite histórica para travar um avançado que em casa é implacável.

Ancelotti tem de decidir se sacrifica linhas defensivas para procurar os golos ou se sai com um bloco baixo à espera do contra-ataque. Ambas as opções têm riscos enormes frente a este Bayern.

A armadilha da mística

O Madrid já deu a volta ao que ninguém esperava na Europa. Contra o Manchester City em 2022. Contra o PSG nesse mesmo ano. Contra o Chelsea. Contra o próprio Bayern em 2012. Esses precedentes são reais e não podem ser ignorados.

Mas há uma diferença estrutural: essas equipas tinham uma base competitiva doméstica que esta não tem. Zidane produzia remontadas históricas enquanto lutava pela Liga. Este Madrid chega a Munique a 7 pontos do Barcelona, sem Courtois, com um sistema tático que foi exposto em 90 minutos na terça-feira. A mística precisa de algo que a sustente. Esta temporada, esse suporte não existe.

O veredicto

O Bayern Munich vai passar esta eliminatória. Não porque o Real Madrid seja incapaz de marcar no Allianz Arena, mas porque as condições para uma remontada histórica não estão presentes. A qualidade individual ainda existe no balneário branco, mas a coesão coletiva, a identidade tática e a confiança que uma noite destas exige estão ausentes há meses.

Se o Madrid marcar primeiro e o Allianz Arena se calar alguns minutos, haverá jogo. Mas pedir ao Bayern que aguente noventa minutos no seu estádio, com Xabi Alonso no banco, é pedir demasiado à história.


Mais cobertura desta eliminatória: